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Pilhados, tesouros arqueológicos do Afeganistão começam a ser devolvidos

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Guarda afegão em frente ao Museu de Cabul, Afeganistão, onde uma faixa diz “Uma nação pode permanecer viva quando suas cultura e história seguem vivas” Imagem: Paula Bronstein/Getty Images

Pegue um lugar com milhares de anos de história, localizado na confluência de grandes impérios do passado e que, nas últimas décadas, é um país mergulhado no caos, largado às traças da guerra. Para os piratas da arqueologia, ladrões de arte e colecionadores de objetos antigos surrupiados, esse lugar é o paraíso da pilhagem. Ele se chama Afeganistão.

Da queda do presidente Daud Khan pelos mujahedin, em 1978, passando pela invasão soviética, tomada do poder pela milícia Taliban, em 1995, guerra com tropas norte-americanas pelo 11 de setembro, foram 43 anos de guerra e anarquia… e herança cultural do país trucidada.

Que herança? O Afeganistão não é apenas um amontoado de cavernas, burcas e terroristas, como o noticiário bombardeia há anos.

As primeiras civilizações surgiram há mais de 2,5 mil anos. Por volta do século 6 a.C., Dario I incorporou a região ao Império Persa. Um século depois, Alexandre, o Grande chegou e fundou Alexandrópolis, a atual Qandahar. No século 2 a.C., surgiu o Império Kushana, que introduziu o budismo. Depois vieram persas sassânidas, mongóis e outras potências.

Tudo isso fez do Afeganistão um país culturalmente rico e diverso. Ele tem dois patrimônios da humanidade na lista da Unesco (e outros 15 em tentativa). Um deles é a região do Vale de Bamiyan, onde estão as ruínas das enormes estátuas do Buda explodidas pelo Taliban no começo de 2001.

Riqueza roubada

Mas destruição não é o único problema. Dezenas de milhares de peças antigas, artefatos budistas e hindus, alguns com quase 2 mil anos, foram surrupiadas e vendidas a museus, galerias, institutos e colecionadores particulares de diversos lugares do mundo. Boa parte chegou ao Ocidente nos anos 1990 e 2000, auge da devastação cultural do Taliban e da guerra ao terror americana.

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Pôster distribuído pela Taliban, com fotos da destruição das estátuas gigantes de Buda, em 2001

Este ano, na esteira da anunciada saída das tropas do país em setembro, os americanos estão devolvendo ao Afeganistão peças de museu adquiridas ilegalmente. Em abril, 33 artefatos, avaliados em US$ 1,8 milhão, foram entregues ao embaixador afegão nos EUA. Os objetos repatriados em abril vão ficar na instituição que simbolizou a pilhagem arqueológica e artística do país, o Museu Nacional do Afeganistão, em Cabul.

Eles faziam parte da coleção de 2,5 mil objetos de Subhash Kapoor, comerciante de arte atualmente preso na Índia acusado de contrabando e furto. Kapoor fez uma série de incursões no Afeganistão entre 2012 e 2014 e acumulou um acervo avaliado em US$ 143 milhões.

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Estátuas do Tesouro Bactriano, de 2000 a.C, em exposição no museu Nieuwe Kerk, Holanda

Em 1992, quando os mujahedin tomaram a capital após a queda do governo, o museu precisou fechar as portas. Então, escondeu coleções e peças valiosas em diferentes prédios do governo. Foi o caso do Tesouro Bactriano, coleção de joias, armas e objetos de ouro de dois milênios de existência.

Mas não havia espaço para esconder tudo. Artigos pequenos eram alvo fácil. Moedas, as peças de marfim escavadas na cidade de Bagram e as de mármore descobertas em Ghazni desapareceram. O museu não tinha nem teto mais, destruído pelo incêndio que os guerrilheiros causaram. Cerca de 70% do acervo foi destruído ou roubado.

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Frente do Museu Nacional do Afeganistão

Em 2001, ele foi reconstruído com ajuda internacional e, hoje, recebe 25 mil visitantes por ano, a maioria afegãos. Uma ninharia, dada a importância da instituição, mas atual situação de Cabul não é das mais convidativas. Só para comparar, o Masp recebeu 700 mil pessoas em 2019.

Tesouros à venda no bazar

O Afeganistão conquistou a independência do Reino Unido em 1919. No mesmo ano, inaugurou o Museu de Cabul e autorizou escavações legalizadas. Sabia-se pouco da riqueza arqueológica do país, o que começou a mudar para valer em 1956, quando uma missão italiana chegou a Gásni, cidade no sudoeste do país, a 150 km da capital.

Entre os séculos 10 e 12, o Império Gasnávida se espalhou pela Ásia Central, do Irã à Índia. Rico e influente, atraiu muitos artistas persas para sua corte.

Por séculos, estudiosos sabiam que Gásni foi capital desse antigo império. A cidade, pacata e sem eletricidade nem água corrente nos anos 1950, foi berço da dinastia que reviveu a cultura persa após séculos de domínio árabe. Mas só após as escavações italianas os tesouros do passado começaram a aparecer.

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Ruínas de forte em Gásni, no Afeganistão

Pelo acordo, parte do que fosse descoberto iria para o Museu Nacional de Arte Oriental, em Roma. O resto ficaria no Afeganistão, em museus em Gásni e em Cabul. Por cerca de 20 anos, as escavações revelaram dezenas de milhares de cerâmicas, moedas, colunas, painéis e tumbas de mármore que datam dos séculos 11 ao 20.

Os problemas começaram depois, com a interminável guerra. Os mármores de Gásni, antes preservados, se espalharam pelo mundo. Em 2013, o Museu de Artes e Ofícios de Hamburgo, Alemanha, adquiriu uma dessas peças em um leilão em Paris. A placa, esculpida com vinhas, arabescos e escrita persa, provavelmente caiu no mercado ilegal na década de 1990.

Os mujahedin usavam suas conexões no Golfo Pérsico com seus ricos patrocinadores dos reinos petrolíferos e alimentavam a vasta rede pirata do comércio de arte global. Mas esse não era o único trajeto. Muitos contrabandeavam artefatos por meio de embaixadas. Peças gasnávidas, esculturas budistas e gregas deixaram o país dessa forma, com mercadores de arte europeus, árabes, americanos e asiáticos pagando milhares de dólares por peças literalmente de museu à venda em mercados de rua.

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Placa de mármore do século 16, de Gásni, no Afeganistão

Desde 1978, quando a guerra estourou, museus do Ocidente começaram a ostentar mármores de Gásni em suas coleções. É o caso do Liden, em Stuttgart, na Alemanha, do David, em Copenhague, na Dinamarca, do Museu da Civilização Islâmica de Sharjah, nos Emirados Árabes Unidos, do al-Sabah, no Kuwait, do Instituto do Mundo Árabe, em Paris, e dos americanos Museu do Brooklyn e Museu de Arte Asiática de San Francisco.

É difícil traçar o percurso dessas obras e em que pedaços da viagem elas foram adquiridas de forma legal ou não. O Museu de Arte Islâmica da Malásia alegou ao “New York Times” que foi às compras no Reino Unido, com tudo às claras. Mas se prontificou a devolver seu painel ao Afeganistão quando ficou evidente que a peça havia sido roubada antes de ser vendida na Inglaterra.

As leis afegãs de proteção ao patrimônio cultural jamais foram respeitadas para valer. Bastava as peças que fossem comercializadas de maneira legal em nos países de colecionadores e museus. Ou seja, poucos se dignavam a se perguntar como uma placa de mármore de quase mil anos descoberta no Afeganistão estava em leilão em Londres. Em 2017, um painel de mármore de Gásni foi leiloado na tradicional casa Christie’s pelo equivalente, à época, a R$ 59 mil.

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Moeda de Gásni, datada de 999 a 1030 d.C

Colonialismo de museu

Em 1970, a Unesco passou a exigir que os compradores checassem a origem e a forma como cada obra foi exportada. Mas os ingleses só ratificaram o tratado em 2002. Os alemães, em 2007.

Nos últimos anos, com o discurso de apropriação cultural e colonialismo em voga, museus de países ricos viraram alvo. Cada vez mais gente questionava: por que tesouros culturais de Egito, Peru, Nigéria ou Afeganistão estão em Nova York, Paris, Berlim ou Madri?

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Código de Hamurábi, em exposição no Louvre, de Paris

Há quem prefira que tudo fique onde está. Alegam a questão do pertencimento. A quem pertence o Código de Hamurábi? Ao Irã ou à humanidade? Como ficaria o Louvre, que em dois dias recebe 30 mil pessoas sem o Código de Hamurábi, sem a ala egípcia, sem a arte islâmica, sem as esculturas gregas e romanas?

Além disso, o Egito de hoje não é o Egito de 3 mil anos atrás e esses artigos estão muito mais seguros em instituições do Ocidente rico do que nesses países turbulentos. O caso do Museu de Cabul é um exemplo gritante. As peças de Gásni no museu romano continuam lá, preservadas.

Mas o perigo da guerra não é exclusividade de nações subdesenvolvidas. A Segunda Guerra Mundial, um conflito que começou com europeus invadindo outros europeus, bombardeou galerias de arte, incendiou museus, devastou bibliotecas e derrubou igrejas em mais de 20 países.

Há mais de 200 anos Lord Byron criticava o Reino Unido por manter os chamados Mármores de Elgin e hoje a questão envolve até o Brexit. O governo grego pede as peças há quase dois séculos, mas o Museu Britânico não concorda, alegando que elas foram compradas legalmente do Império Turco-Otomano.

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Peças de bronze de Benin expostas no museu Linden, em Stuttgart, Alemanha

Em todo caso, hoje há uma tendência de repatriação de obras e de descolonização de instituições, especialmente em casos de flagrante pilhagem cultural. Em abril, a Alemanha anunciou que vai devolver à Nigéria os Bronzes de Benin, estátuas desse reino que ficava na atual Nigéria até ser conquistado pelos ingleses.

O Museu de Artes e Ofícios de Hamburgo devolveu seu painel à embaixada afegã. Em 2019, o Metropolitan, em Nova York, permitiu a seus departamentos decidir se queriam continuar fazendo suas buscas regulares por novos objetos. Desde então, o setor dedicado ao Oriente Próximo Antigo não adquiriu nenhuma nova peça.

Quanto ao Museu de Cabul, aos poucos ele recupera seu acervo. Dificilmente terá tudo de volta, até porque nem se sabe mais o tamanho do catálogo, pois 90% dos arquivos foram queimados na guerra, segundo o Instituto Oriental da Universidade de Chicago, nos EUA. Mas essa instituição centenária resiste e espera dias melhores.

Fonte: UOL

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